Nem toda trilha em Ubatuba leva a uma praia. Algumas levam direto ao passado. No meio da mata, próximo ao mar da Praia da Lagoinha, existe um lugar que mistura história, beleza natural e uma certa dose de mistério: as Ruínas da Lagoinha. O que antes foi uma fazenda modelo, símbolo de riqueza e progresso, hoje é um ponto silencioso onde o tempo parece ter parado.
À primeira vista, é fácil se encantar com o cenário: paredões de pedra cobertos por raízes, restos de uma roda d’água e uma imensa laje de granito se espalham pelo terreno, cercados por árvores centenárias. Mas quem se aproxima e começa a entender o que aquelas pedras representam, percebe que ali estão marcas profundas da história do Brasil — e de Ubatuba.
Logo abaixo, desenvolvemos um guia que explica mais detalhes sobre esse ponto turístico e como chegar ao local. Acompanhe!

O que eram as Ruínas da Lagoinha?
Tratam-se de restos da Fazenda Bom Retiro. Esta atração histórica foi construída no começo do século XIX. Acredita-se que o responsável pela obra tenha sido um francês chamado Stevenné e o que ele ergueu por ali não era pouca coisa.
Com aproximadamente 2.400 m², a fazenda foi uma referência em tecnologia agrícola da época. Ali se produzia café, açúcar mascavo e aguardente de cana-de-açúcar, com técnicas que eram consideradas inovadoras.
Além da produção, a fazenda também funcionava como um espaço de aprendizado. Lá se ensinavam métodos de fabricação de açúcar e se propagava a criação de carneiros merinos, utilizados para produção de carvão animal. Era um tempo em que Ubatuba vivia uma fase próspera, com seu porto escoando a produção vinda do Vale do Paraíba.
Mas nem tudo era progresso. A base da fazenda era sustentada por mão de obra escrava, como era comum naquela época. Foi só no fim do século XIX, com a abolição da escravatura, que o ciclo começou a se transformar.
A era do Capitão Romualdo
Um dos momentos mais marcantes da história da Fazenda Bom Retiro foi durante a gestão do Capitão Romualdo, figura respeitada na região. Ele se destacou por um comportamento considerado incomum para a época: tratava os escravos com dignidade, permitia que comessem na mesma mesa e dava folga nas manhãs de sábado para que fossem à Praia da Lagoinha.
O capitão vivia com a esposa, sem filhos, e naquela época a propriedade era conhecida como o Solar do Capitão. Mesmo após a abolição, muitos dos ex-escravizados permaneceram na fazenda, trabalhando por gratidão e lealdade. Só deixaram o local após a morte do Capitão, marcando o fim de um ciclo.
O abandono e o tombamento
Com a modernização das técnicas agrícolas por volta de 1850, a fazenda entrou em declínio. A produção caiu, os investimentos pararam e, com o tempo, a natureza começou a tomar o lugar de volta. O que restou foram paredes em ruínas, pedras expostas, pedaços de equipamentos antigos — tudo tomado por raízes e folhas.
Em 1985, as Ruínas da Lagoinha foram tombadas pelo Condephaat como patrimônio histórico, sob o nome de Engenho Bom Retiro e atualmente estão sob a responsabilidade da Fundart, que cuida da preservação cultural em Ubatuba.

Como chegar nas Ruínas da Lagoinha?
Este passeio em Ubatuba está situado a cerca de 24 km do centro do município. Este bairro de Ubatuba é chamado de Lagoinha. O acesso é feito pela rodovia Rio-Santos (BR-101), seja vindo de Caraguatatuba ou de Ubatuba. Há uma placa de sinalização indicando a entrada.
Você vai sair da rodovia e entrar na Avenida do Engenho Velho, seguindo por cerca de 1 km até encontrar a entrada das ruínas. O endereço oficial é na avenida do Engenho Velho. O número é 1062.
É importante deixar claro que não há estacionamento oficial, mas é possível deixar o carro na rua, com atenção para não atrapalhar moradores ou bloqueios de acesso.
O que ver nas Ruínas da Lagoinha?
Se você está curtindo Ubatuba com crianças, com família, amigos ou simplesmente sozinho, saiba que verá um ponto turístico que ficará na memória. Isso porque, por lá, é possível ver:
- Paredões de pedra e ruínas preservadas da antiga fazenda;
- Roda d’água parcialmente intacta, que ajudava na produção agrícola;
- Uma grande pedra de granito com 16 metros de diâmetro;
- Raízes e árvores centenárias que se misturam aos muros, criando um cenário quase surreal;
- Um ambiente de contemplação, silêncio e natureza, ideal para fotos e reflexão.
Trilha até a Cachoeira Véu da Noiva
Quem estiver com tempo e disposição pode seguir pela trilha que parte das ruínas até a Cachoeira Véu da Noiva, uma queda d’água com poços para banho e vegetação preservada. A caminhada leva em torno de 30 minutos, e no caminho já é possível encontrar pequenas quedas e poços a apenas 5 minutos das ruínas.
A trilha é bem marcada, mas requer atenção. Não é incomum encontrar pequenas cobras ou insetos, por isso o ideal é usar calçado fechado, repelente e sempre respeitar a fauna e a flora local.
Estenda o passeio: Castelo dos Arautos
Aproveite para conhecer outra atração na mesma região: o Castelo dos Arautos do Evangelho, que funciona aos domingos e abre suas portas ao público. É uma oportunidade para complementar seu roteiro com um local religioso, arquitetônico e repleto de jardins bem cuidados.
Como aproveitar melhor o passeio nas Ruínas da Lagoinha em Ubatuba?
Este passeio em Ubatuba pode ficar ainda melhor para os turistas que seguem determinadas dicas. Entre as principais, vale citar:
- Leve água e repelente. A região é úmida e com bastante vegetação.
- Use tênis ou bota de trilha. Chinelo não é indicado.
- Evite deixar lixo. Preserve o espaço para as próximas gerações.
- Respeite os limites. Não suba em ruínas instáveis ou áreas cercadas.
- Fotografe com consciência. O local é sensível e histórico.
Enfim, as Ruínas da Lagoinha não são apenas pedras antigas no meio da mata. Elas são testemunhos de uma época que moldou o Brasil, com toda a sua complexidade, contrastes e contradições. Caminhar por lá é uma forma de se reconectar com a história, refletir sobre o passado e valorizar o presente.
Portanto, se você gosta de trilhas leves, paisagens naturais e experiências culturais, inclua esse passeio no seu roteiro por Ubatuba. Você pode até ir em silêncio, mas dificilmente vai sair de lá sem algo para pensar.

Sou Michele, apaixonada por ecoturismo e por tudo o que envolve aventura e natureza. Ubatuba é meu playground e, ao longo dos anos, explorei os melhores lugares para trilhas, mergulho, surf, rapel e tantos outros esportes ao ar livre.
Mas não basta só conhecer os destinos — saber como chegar com segurança, o que levar e quais cuidados tomar faz toda a diferença. Por isso, compartilho dicas práticas para que você evite imprevistos e aproveite cada momento ao máximo. Quero que sua viagem a Ubatuba seja memorável, cheia de descobertas e conexão real com a natureza!






